Foto - Reprodução/Romeu Evaristo interpretou o Saci na primeira versão televisiva de Sítio do Picapau Amarelo, exibida pela Rede Globo entre 1977 e 1986

Arteiro que só ele, o Saci não parece disposto a deixar que as abóboras do Halloween sejam exclusividade das bruxas americanas. Com seu jeito travesso, o menino de uma perna só também quer entrar na festa, mas à sua maneira: dando um destino bem brasileiro às abóboras, de preferência transformadas em um bom escondidinho de carne-seca. É o que contam, em tom de brincadeira, os chamados “saciólogos”, entusiastas que defendem a valorização de um dos personagens mais conhecidos do imaginário popular brasileiro.

No dia 31 de outubro, enquanto muitos se fantasiam de bruxas, vampiros e monstros para celebrar o Halloween, o Brasil também tem um personagem próprio para colocar em cena. É o Dia do Saci, uma data criada para chamar a atenção para a riqueza do nosso folclore e lembrar que o país tem suas próprias histórias, lendas e criaturas fantásticas.

A comemoração americana, tradicionalmente conhecida como Dia das Bruxas, vem conquistando cada vez mais espaço no Brasil, especialmente entre os jovens. A influência pode ser percebida nas festas, nas escolas, nas redes sociais e também no comércio, onde grandes marcas aproveitam a ocasião para lançar produtos e atrair consumidores.

Mas, enquanto as abóboras iluminadas e as fantasias de Halloween ganham vitrines e festas, há quem prefira acender a chama das histórias que povoam o imaginário brasileiro. Foi nesse contexto que, no início dos anos 2000, surgiu a mobilização para instituir o Dia do Saci em 31 de outubro, como uma forma de contrapor a crescente influência da festividade estrangeira e valorizar a cultura popular nacional.

A proposta ganhou força em 2003, quando foi apresentada a ideia de um projeto de lei federal para instituir oficialmente a data. No mesmo ano, foi fundada a Sociedade dos Observadores de Saci (Sosaci), organização dedicada à preservação e divulgação da cultura do personagem e das manifestações do folclore brasileiro.

Entre seus integrantes está o jornalista palmeirense Rogério Lima, membro da entidade e defensor das histórias do pequeno personagem que atravessa redemoinhos, assusta viajantes, esconde objetos e apronta travessuras por onde passa.

Negro, de uma perna só, com cachimbo na boca e uma carapuça vermelha que lhe confere poderes mágicos, o Saci é muito mais do que uma figura infantil. Sua história reúne elementos da tradição oral brasileira e carrega marcas da formação cultural do país, especialmente das matrizes africanas e indígenas. Ao longo das gerações, ganhou diferentes versões, atravessou regiões e se tornou um dos símbolos mais conhecidos do nosso imaginário popular.

A disputa entre Halloween e Dia do Saci, portanto, vai além de uma simples escolha de fantasia ou decoração. Trata-se também de refletir sobre como consumimos cultura, quais histórias transmitimos às novas gerações e quanto espaço reservamos às nossas próprias tradições.

Não há necessidade de apagar as bruxas, os fantasmas ou as abóboras do Halloween. Mas também não podemos deixar que o Saci fique esquecido no fundo do quintal, entre uma lenda antiga e outra. Afinal, se existe um personagem capaz de enfrentar essa invasão cultural com bom humor, esperteza e uma pitada de travessura, é justamente aquele que desaparece num redemoinho e deixa todo mundo procurando por ele.

Neste 31 de outubro, entre doces, fantasias e abóboras, que também haja espaço para uma carapuça vermelha, uma boa história ao pé da fogueira e um pouco mais de orgulho do nosso folclore. Porque o Saci não precisa de passaporte para entrar na festa. Ele já é de casa.