
A Casa do Monjolo, terreiro de tradição iorubá localizado em Palmeira, protocolou junto ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural o pedido oficial de inscrição no Livro de Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial. O objetivo é reconhecer oficialmente o conjunto de saberes, práticas, celebrações, expressões artísticas e conhecimentos tradicionais preservados pela comunidade há mais de 106 anos.
O pedido fundamenta-se na compreensão de que o patrimônio cultural imaterial é constituído pelos conhecimentos transmitidos entre gerações e continuamente recriados pela comunidade. No caso da Casa do Monjolo, trata-se de um patrimônio vivo, iniciado na década de 1920 em Porto Amazonas e mantido em Palmeira desde a década de 1970 pela família Xavier/Oliveira, atualmente em sua terceira geração de dirigentes.
A história da família também se confunde com a história da cultura popular da região. Em Porto Amazonas, seus integrantes eram responsáveis pela organização do tradicional Grito de Carnaval, confeccionavam estandartes, fantasias e animavam os bailes de rua com a banda familiar “Os Diamantes”. Também foram guardiões da Folia do Divino e da antiga Capela do Divino, preservando manifestações religiosas e populares que permanecem vivas até os dias atuais. Esse legado será um dos destaques do processo de reconhecimento patrimonial.

Uma das principais referências culturais preservadas é a língua iorubá. As rezas, cantigas litúrgicas, saudações, invocações e diversos momentos das celebrações utilizam o idioma ancestral africano como forma de manter viva uma tradição que atravessou gerações. Mais do que um elemento religioso, a língua representa um patrimônio linguístico e cultural que conecta a comunidade aos seus ancestrais e preserva uma das bases da cultura afro-brasileira.
Outro conjunto de bens destacados no pedido são os chamados saberes manuais. A Casa do Monjolo preserva a produção artesanal de guias, brajás e kelês — colares utilizados nas tradições afro-brasileiras que carregam significados religiosos, históricos e identitários. Cada peça é confeccionada segundo fundamentos específicos, respeitando cores, materiais e simbolismos transmitidos pelos mais velhos da comunidade. Também fazem parte desse patrimônio a confecção de estandartes, bandeiras tradicionais e diversos elementos utilizados nas celebrações religiosas e culturais.

A manualidade também aparece na adaptação de elementos tradicionais às características naturais dos Campos Gerais. Um exemplo é a confecção dos contra-eguns, objetos rituais de proteção. Enquanto em outras regiões são confeccionados com folhas de dendezeiro e conchas do mar, na Casa do Monjolo utilizam-se folhas de jerivá e coquinhos encontrados na região, demonstrando como a tradição preserva seus fundamentos ao mesmo tempo em que dialoga com o território onde está inserida.
A gastronomia tradicional ocupa lugar de destaque no processo de registro. O dossiê apresenta uma ampla relação de alimentos preparados segundo conhecimentos ancestrais e dedicados aos diferentes orixás. Entre eles estão o Amalá de Xangô, o Ipeté de Oxum, o Acarajé, o Arroz de Leite, pratos preparados para Ogum, Oxóssi, Nanã, Omolu e Yemanjá, além de diversas outras receitas transmitidas oralmente entre gerações. Boa parte dos ingredientes utilizados é cultivada no próprio terreiro, reforçando a ligação entre alimentação, espiritualidade e preservação ambiental. Para a comunidade, cozinhar é também preservar memória, identidade e cultura.

A musicalidade constitui outro dos bens culturais cuja proteção é solicitada. A Casa do Monjolo mantém vivos diversos toques tradicionais executados nos atabaques, considerados formas de comunicação com o sagrado e elementos fundamentais das cerimônias religiosas. Entre eles estão os toques Nagô, Congo, Congo de Ouro, Barravento, Ijexá, Samba de Cabula e Umbanda Tradicional, além de ritmos específicos destinados aos orixás, como Eguida, Laguló, Opanijé, Vamuian, Xerê, Alujá e Ilú. Cada toque possui significado próprio, momento específico de execução e conhecimentos transmitidos oralmente entre os integrantes da comunidade.

O pedido de reconhecimento também contempla o calendário festivo preservado pela Casa do Monjolo. Entre as celebrações realizadas anualmente estão a Feijoada do Trabalhador, que marca o aniversário do terreiro; o Afrobanquete em comemoração ao 13 de Maio; o Olubajé, dedicado ao orixá Omolu; a Festa de Cosme e Damião, com o tradicional Caruru dos Sete Meninos; além das atividades desenvolvidas durante a Semana da Consciência Negra. Esses eventos unem religiosidade, cultura, gastronomia, música e convivência comunitária, fortalecendo a transmissão dos conhecimentos tradicionais.
Outro importante patrimônio destacado no processo é a preservação da agrobiodiversidade. A Casa do Monjolo mantém um verdadeiro banco vivo com mais de 150 espécies de plantas, sementes crioulas, favas, ervas e variedades agrícolas utilizadas tanto na alimentação quanto nos rituais religiosos. O cultivo segue conhecimentos tradicionais baseados na ancestralidade e na compreensão de que “sem folha não há orixá”, princípio fundamental da tradição iorubá.

Também fazem parte do pedido de registro os itans, narrativas orais que preservam a filosofia, os ensinamentos e a cosmovisão dos povos iorubás. Essas histórias são transmitidas entre gerações durante momentos de formação, convivência comunitária, celebrações e orientações dos mais velhos, constituindo um dos principais instrumentos de preservação da memória africana.
A indumentária tradicional utilizada pela comunidade também é apontada como bem cultural. Vestimentas, turbantes, saias, fios de contas, colares, pulseiras e demais elementos carregam significados religiosos, históricos e identitários, expressando a ligação dos praticantes com seus orixás e com a ancestralidade afro-brasileira.

Nas últimas décadas, a Casa ampliou sua atuação para além da dimensão religiosa. Desenvolve ações permanentes de educação patrimonial, palestras, oficinas, exposições, projetos sociais, formação de professores e estudantes, grupos de percussão, dança e Bumba Meu Boi, além da realização anual da Semana da Consciência Negra e do Projeto Agô, voltado à geração de renda para mulheres em situação de vulnerabilidade e pessoas LGBTQIAP+. Essas iniciativas reforçam o papel da instituição como centro de preservação cultural e de promoção da diversidade.

Caso o pedido seja aprovado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural e homologado pelo Poder Executivo, Palmeira passará a reconhecer oficialmente esse amplo conjunto de saberes como Patrimônio Cultural Imaterial do município. O registro representará a proteção de práticas, conhecimentos e manifestações transmitidos ao longo de mais de um século, fortalecendo políticas públicas de salvaguarda, valorização da cultura afro-brasileira, combate à intolerância religiosa e preservação da memória coletiva. Mais do que reconhecer um espaço religioso, o município passará a proteger um patrimônio vivo, construído diariamente por uma comunidade que mantém vivas tradições fundamentais para a formação da identidade cultural de Palmeira.


























