Foto/Casa do Monjolo - Bem cultural imaterial é aquele patrimônio que não está em um objeto ou construção, mas nas práticas, saberes, celebrações, músicas, tradições e modos de fazer que passam de geração em geração. São histórias vivas de uma comunidade, preservadas pela memória e pela participação das pessoas que mantêm essas manifestações culturais.

A Casa do Monjolo, terreiro de tradição iorubá localizado em Palmeira, protocolou junto ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural o pedido oficial de inscrição no Livro de Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial. O objetivo é reconhecer oficialmente o conjunto de saberes, práticas, celebrações, expressões artísticas e conhecimentos tradicionais preservados pela comunidade há mais de 106 anos.

O pedido fundamenta-se na compreensão de que o patrimônio cultural imaterial é constituído pelos conhecimentos transmitidos entre gerações e continuamente recriados pela comunidade. No caso da Casa do Monjolo, trata-se de um patrimônio vivo, iniciado na década de 1920 em Porto Amazonas e mantido em Palmeira desde a década de 1970 pela família Xavier/Oliveira, atualmente em sua terceira geração de dirigentes.

A história da família também se confunde com a história da cultura popular da região. Em Porto Amazonas, seus integrantes eram responsáveis pela organização do tradicional Grito de Carnaval, confeccionavam estandartes, fantasias e animavam os bailes de rua com a banda familiar “Os Diamantes”. Também foram guardiões da Folia do Divino e da antiga Capela do Divino, preservando manifestações religiosas e populares que permanecem vivas até os dias atuais. Esse legado será um dos destaques do processo de reconhecimento patrimonial.

Foto/Roberto Benedito – Família participa de um cortejo de Carnaval nas ruas de Porto Amazonas (PR), em registro sem data precisa. A imagem retrata uma das antigas manifestações carnavalescas do município, preservando a memória das celebrações populares e das tradições culturais locais.

Uma das principais referências culturais preservadas é a língua iorubá. As rezas, cantigas litúrgicas, saudações, invocações e diversos momentos das celebrações utilizam o idioma ancestral africano como forma de manter viva uma tradição que atravessou gerações. Mais do que um elemento religioso, a língua representa um patrimônio linguístico e cultural que conecta a comunidade aos seus ancestrais e preserva uma das bases da cultura afro-brasileira.

Outro conjunto de bens destacados no pedido são os chamados saberes manuais. A Casa do Monjolo preserva a produção artesanal de guias, brajás e kelês — colares utilizados nas tradições afro-brasileiras que carregam significados religiosos, históricos e identitários. Cada peça é confeccionada segundo fundamentos específicos, respeitando cores, materiais e simbolismos transmitidos pelos mais velhos da comunidade. Também fazem parte desse patrimônio a confecção de estandartes, bandeiras tradicionais e diversos elementos utilizados nas celebrações religiosas e culturais.

Foto/Casa do Monjolo – A produção artesanal de guias, brajás, kelês, estandartes e bandeiras tradicionais integra o patrimônio cultural preservado pela comunidade. Confeccionadas de acordo com fundamentos das religiões afro-brasileiras, essas peças expressam conhecimentos ancestrais, identidade e tradição transmitidos entre gerações.

A manualidade também aparece na adaptação de elementos tradicionais às características naturais dos Campos Gerais. Um exemplo é a confecção dos contra-eguns, objetos rituais de proteção. Enquanto em outras regiões são confeccionados com folhas de dendezeiro e conchas do mar, na Casa do Monjolo utilizam-se folhas de jerivá e coquinhos encontrados na região, demonstrando como a tradição preserva seus fundamentos ao mesmo tempo em que dialoga com o território onde está inserida.

A gastronomia tradicional ocupa lugar de destaque no processo de registro. O dossiê apresenta uma ampla relação de alimentos preparados segundo conhecimentos ancestrais e dedicados aos diferentes orixás. Entre eles estão o Amalá de Xangô, o Ipeté de Oxum, o Acarajé, o Arroz de Leite, pratos preparados para Ogum, Oxóssi, Nanã, Omolu e Yemanjá, além de diversas outras receitas transmitidas oralmente entre gerações. Boa parte dos ingredientes utilizados é cultivada no próprio terreiro, reforçando a ligação entre alimentação, espiritualidade e preservação ambiental. Para a comunidade, cozinhar é também preservar memória, identidade e cultura.

Foto/Casa do Monjolo – Abará – Preparado à base de feijão-fradinho, envolto em folha de bananeira e cozido no vapor, o abará é um alimento de profundo significado nas tradições afro-brasileiras. Além de sua importância na culinária de matriz africana, integra rituais, oferendas e celebrações, simbolizando ancestralidade, partilha, cuidado e a preservação dos saberes transmitidos entre gerações.

A musicalidade constitui outro dos bens culturais cuja proteção é solicitada. A Casa do Monjolo mantém vivos diversos toques tradicionais executados nos atabaques, considerados formas de comunicação com o sagrado e elementos fundamentais das cerimônias religiosas. Entre eles estão os toques Nagô, Congo, Congo de Ouro, Barravento, Ijexá, Samba de Cabula e Umbanda Tradicional, além de ritmos específicos destinados aos orixás, como Eguida, Laguló, Opanijé, Vamuian, Xerê, Alujá e Ilú. Cada toque possui significado próprio, momento específico de execução e conhecimentos transmitidos oralmente entre os integrantes da comunidade.

Foto/Casa do Monjolo – O atabaque é um dos principais instrumentos das manifestações afro-brasileiras, responsável por conduzir os cânticos e os toques sagrados. Tradicionalmente, ele integra um conjunto formado por três tambores: o Rum, de maior tamanho e que conduz o toque; o Rumpi, de porte intermediário, que dialoga com o Rum; e o Lê, o menor deles, responsável pela base rítmica. Também fazem parte da musicalidade ritual o agogô, instrumento metálico de percussão que acompanha os toques, e o adjá, sino sagrado utilizado em momentos específicos das cerimônias para saudar e invocar as forças espirituais.

O pedido de reconhecimento também contempla o calendário festivo preservado pela Casa do Monjolo. Entre as celebrações realizadas anualmente estão a Feijoada do Trabalhador, que marca o aniversário do terreiro; o Afrobanquete em comemoração ao 13 de Maio; o Olubajé, dedicado ao orixá Omolu; a Festa de Cosme e Damião, com o tradicional Caruru dos Sete Meninos; além das atividades desenvolvidas durante a Semana da Consciência Negra. Esses eventos unem religiosidade, cultura, gastronomia, música e convivência comunitária, fortalecendo a transmissão dos conhecimentos tradicionais.

Outro importante patrimônio destacado no processo é a preservação da agrobiodiversidade. A Casa do Monjolo mantém um verdadeiro banco vivo com mais de 150 espécies de plantas, sementes crioulas, favas, ervas e variedades agrícolas utilizadas tanto na alimentação quanto nos rituais religiosos. O cultivo segue conhecimentos tradicionais baseados na ancestralidade e na compreensão de que “sem folha não há orixá”, princípio fundamental da tradição iorubá.

Foto/Casa do Monjolo – Nas religiões afro-brasileiras, os adeptos também desempenham o papel de guardiões da agrobiodiversidade. O cultivo, a preservação e a troca de sementes crioulas, folhas sagradas, favas, raízes e outras espécies ancestrais garantem a continuidade dos conhecimentos tradicionais e das práticas rituais. Cuidar desses elementos é preservar a biodiversidade, a memória dos povos de terreiro e os saberes transmitidos de geração em geração.

Também fazem parte do pedido de registro os itans, narrativas orais que preservam a filosofia, os ensinamentos e a cosmovisão dos povos iorubás. Essas histórias são transmitidas entre gerações durante momentos de formação, convivência comunitária, celebrações e orientações dos mais velhos, constituindo um dos principais instrumentos de preservação da memória africana.

A indumentária tradicional utilizada pela comunidade também é apontada como bem cultural. Vestimentas, turbantes, saias, fios de contas, colares, pulseiras e demais elementos carregam significados religiosos, históricos e identitários, expressando a ligação dos praticantes com seus orixás e com a ancestralidade afro-brasileira.

Foto/Casa do Monjolo – Os itans são narrativas sagradas das tradições de matriz africana que transmitem ensinamentos sobre a vida, a natureza, a ética e as relações humanas. Mais do que histórias, constituem uma filosofia ancestral que orienta comportamentos, preserva a memória coletiva e comunica os valores e conhecimentos dos povos africanos e afro-brasileiros por meio da tradição oral.

Nas últimas décadas, a Casa ampliou sua atuação para além da dimensão religiosa. Desenvolve ações permanentes de educação patrimonial, palestras, oficinas, exposições, projetos sociais, formação de professores e estudantes, grupos de percussão, dança e Bumba Meu Boi, além da realização anual da Semana da Consciência Negra e do Projeto Agô, voltado à geração de renda para mulheres em situação de vulnerabilidade e pessoas LGBTQIAP+. Essas iniciativas reforçam o papel da instituição como centro de preservação cultural e de promoção da diversidade.

Foto/Casa do Monjolo – A tradição e a memória do Carnaval sempre fizeram parte da história da família que hoje conduz a Casa do Monjolo. Mantendo vivo esse legado, a instituição preserva a folia do Bumba Boi, que sai às ruas uma vez por ano durante o Carnaval, reafirmando uma manifestação marcada pela música, pela dança e pela celebração comunitária. Ao longo do ano, o grupo também realiza apresentações em escolas, contribuindo para a valorização da cultura popular e da educação patrimonial. Na fotografia, apresentação no Colégio Henrique Stadler.

Caso o pedido seja aprovado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural e homologado pelo Poder Executivo, Palmeira passará a reconhecer oficialmente esse amplo conjunto de saberes como Patrimônio Cultural Imaterial do município. O registro representará a proteção de práticas, conhecimentos e manifestações transmitidos ao longo de mais de um século, fortalecendo políticas públicas de salvaguarda, valorização da cultura afro-brasileira, combate à intolerância religiosa e preservação da memória coletiva. Mais do que reconhecer um espaço religioso, o município passará a proteger um patrimônio vivo, construído diariamente por uma comunidade que mantém vivas tradições fundamentais para a formação da identidade cultural de Palmeira.