Fotos - Renato Kovalski

No último dia 13 de setembro, a Comunidade do Passo do Tio Paulo viveu um daqueles momentos que ficam guardados na memória e no coração. Foi realizada a 11ª Feira de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade de Palmeira, junto com a 4ª Feira dos Quintais Produtivos, celebrando o tema “Tempo de Florescer: guardar, plantar e partilhar”.

Construída coletivamente, a mandala representa a riqueza que vem dos quintais produtores. – Foto/Renato Kovalski

O nome da comunidade já carrega história e afeto. Chamado Passo do Tio Paulo em homenagem ao benzedor de passo ligeiro, aquele que corria para atender dores e sofrimentos quando médicos eram raros e distantes. Foi com esse mesmo passo ágil e solidário que ele cuidou de tantas famílias. Hoje, esse legado de cuidado se transformou em espaço de encontro e partilha.

Desta vez, quem correu foram as comunidades vizinhas — mas não por dor, e sim pelo desejo de celebrar a vida que brota da terra. Vieram em caravanas cheias de sementes, saberes e amor, trazendo consigo cores, histórias e a força da coletividade.

Estiveram presentes guardiões e guardiãs da biodiversidade vindos de Ranchinho, Faxinal dos Quartins, Faxinal dos Silva, Correias, Pinheiral de Baixo, Poço Grande, Água Clara, da sede de Palmeira e até de cidades vizinhas como Porto Amazonas, São João do Triunfo e Ponta Grossa.

Entre trocas, conversas e partilhas, o Passo do Tio Paulo se fez ainda mais vivo. Ali, cada semente guardada, plantada e compartilhada carrega também a certeza de que cuidar da terra é cuidar da vida — e que o tempo de florescer é agora.

A chegada das caravanas sempre desperta a expectativa: quais guloseimas estarão escondidas sob os pratos, cobertos com panos cuidadosamente bordados ou pintados com carinho! É nesse momento que a mesa se transforma em celebração. Bolo, bolachas, geleias, compotas, tortas, pães e pratos variados vão sendo colocados com afeto por cada pessoa que chega. É o café da partilha — instante de confraternização e de encontros, em que cada um agenda presença também na banca do amigo, para dividir sementes e trocar saberes.

“Daqui a pouco passo lá para trocar algumas sementes!”, ouve-se entre risos, café e abraços.

Bênção Inter-religiosa das Sementes: um ato de fé, união e gratidão pela vida. – Foto/Renato Kovalski

Ainda pela manhã, aconteceu a bênção das sementes. Diante da mandala, com todos reunidos, religiosos de diferentes crenças primeiro se encantam com a diversidade exposta com tanto zelo: flores, sementes de todas as cores, texturas e tamanhos, mudas, remédios caseiros, raízes e ervas medicinais. Do minúsculo grão de feijão às abóboras e mandiocas gigantes, capazes de alimentar famílias inteiras, cada elemento da mandala é um testemunho da fartura da terra.

Após a bênção, as falas oficiais de abertura se destacaram não apenas pela força das palavras, mas, sobretudo, pela presença feminina. Organização, luta, disposição e resultados concretos são frutos do trabalho delas e dos coletivos que representam, unidos pelo Coletivo Triunfo: Quintais Produtivos, Grupo São Francisco de Agroecologia, Cooperativa da Agricultura Familiar de Palmeira, Casa do Monjolo e Associação dos Produtores Ecológicos de Palmeira.

Brincar com as brincadeiras tradicionais é reviver memórias, fortalecer laços e celebrar a cultura popular. Foto/Renato Kovalski

Enquanto as crianças se divertiam no espaço Curumim — com brinquedos e brincadeiras tradicionais, confecção de brinquedos, oficina de percussão e muita alegria — o almoço já esperava à mesa. Tudo orgânico, vindo dos diversos quintais onde mãos firmes e saberes ancestrais cultivam os alimentos que fortalecem o corpo e a vida comunitária.

É pura alegria participar de encontros que celebram a vida no campo, onde a simplicidade se transforma em festa e união. – Foto/Renato Kovaslki

À tarde, em clima de festa, os concursos deram o tom de descontração e celebração. Houve disputa para saber quem trazia a maior mandioca e quem era o mais rápido debulhador de milho. Entre aplausos e torcida animada, os participantes mostraram a destreza da lida diária no campo. No fim, as vitórias foram femininas, não pela rapidez, mas pela presença majoritária, reafirmando o papel central delas na agricultura, no cuidado com a terra e na preservação dos saberes rurais.

A partilha da mandala, antes do encerramento da feira, foi momento de celebração coletiva. Um ato de comunhão, amizade e respeito, em que cada semente compartilhada carregava a certeza de salvaguardar espécies, manter tradições alimentares e garantir vida para as próximas gerações.

Na partilha das sementes, unem-se adultos, crianças e idosos em um mesmo ciclo de vida e esperança – Foto/Renato Kovalski

São os guardiões e guardiãs das sementes que mantêm acesa essa chama. Eles são os protetores do passado, do presente e do futuro, pois guardar a semente é guardar a memória da humanidade; plantar é renovar a esperança de dias férteis e justos; partilhar é multiplicar a vida em todas as suas formas.

Na 20ª Feira Regional de Sementes Crioulas e da Agrobiodiversidade, esses guardiões mostraram que sua missão vai além da agricultura: é um compromisso com a diversidade, a cultura e a sobrevivência humana.

Assim como o passo ligeiro do Tio Paulo corria para aliviar dores e oferecer cuidado, hoje são as sementes crioulas que correm de mão em mão, levando esperança, alimento e vida.

Todos somos sementes e trazemos em nós o que pode florescer e multiplicar. – Foto/Renato Kovalski

Cada guardião que as preserva segue a mesma missão do benzedor: cuidar da gente com generosidade e amor. No compasso desse passo solidário, as sementes florescem, atravessam gerações e lembram que partilhar é o gesto mais bonito de quem ama a terra e acredita no futuro.

É como ensina o lema da feira, ressignificado no coração de cada guardião:
“Tempo de Florescer: guardar, plantar e partilhar.”

Deixe um comentário