Apesar de apresentarem o maior crescimento proporcional no Brasil, as religiões de matriz afro-brasileira continuam sendo as mais estigmatizadas e alvo recorrente de preconceito e violência no país. Dados do Censo 2022 apontam que o número de pessoas que se declaram praticantes de religiões como Umbanda e Candomblé cresceu 233% em relação ao levantamento anterior, percentual de crescimento superior ao registrado por outras tradições religiosas.
Paradoxalmente, esse avanço não se reflete em maior respeito social. Levantamentos nacionais de 2024 indicam que as religiões de matriz africana lideram, com folga, o número de denúncias de intolerância religiosa no Brasil. Em registros oficiais e relatórios de direitos humanos, Umbanda e Candomblé concentram centenas de casos, envolvendo desde ofensas e discriminação até invasões de terreiros, ameaças e violência simbólica.
Outras religiões, como evangélicos, católicos e espíritas, também figuram entre as vítimas de intolerância, porém em proporção significativamente menor quando comparadas às tradições afro-brasileiras.
Somente em 2025, o Disque 100 registrou 2.723 denúncias relacionadas à violação da liberdade religiosa, totalizando 4.424 violações. Os dados do Ministério dos Direitos Humanos mostra que 76% dos terreiros de religiões afro no Brasil sofreram algum tipo de preconceito ou intolerância.
Realidade local
Em Palmeira, o Censo de 2022 marcou um dado inédito: foi a primeira vez que as religiões de matriz africana apareceram oficialmente no levantamento, com 0,12% da população se autodeclarando adepta. No entanto, estudos e monitoramentos realizados pela Casa do Monjolo, espaço local dedicado à tradição, religião e pesquisa afro-brasileira, indicam que esse número está subnotificado. A estimativa é de que mais de 5% da população palmeirense frequente terreiros ou mantenha vínculos de fé com religiões de matriz africana.
Raízes históricas do preconceito
A discriminação contra as religiões afro-brasileiras tem origem histórica no período colonial. Naquele contexto, práticas religiosas de povos africanos escravizados foram criminalizadas, perseguidas e demonizadas, sob forte influência da Igreja Católica e de uma sociedade estruturada pelo racismo. A cultura europeia branca foi imposta como padrão, enquanto as expressões religiosas negras eram associadas ao “mal”, à marginalidade e à criminalidade, legitimando ações repressivas do Estado, invasões de terreiros e perseguições sistemáticas.
Mesmo com a garantia constitucional da liberdade religiosa, a intolerância persiste no Brasil contemporâneo. Especialistas apontam que, nas últimas décadas, a expansão de setores do neopentecostalismo, aliada a discursos que demonizam orixás e entidades afro-brasileiras, tem reforçado estigmas históricos. Esse tipo de narrativa, amplificada por mídias religiosas e redes sociais, contribui para ataques simbólicos e materiais, evidenciando que a intolerância religiosa segue profundamente ligada a questões raciais, culturais e estruturais.
21 de janeiro: memória, reflexão e combate
Neste 21 de janeiro, Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, os dados reforçam a necessidade de memória, educação e enfrentamento ao preconceito. A data não é apenas simbólica, mas um chamado à sociedade para reconhecer a diversidade religiosa como um direito fundamental e combater práticas discriminatórias que ainda atingem, de forma desproporcional, as religiões de matriz afro-brasileira.




























