Foto/Divulgação
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Mais de 120 anos depois de sua primeira publicação, a obra de Antônio Martins de Araújo volta a circular e ganha uma nova oportunidade de ser lida. “Vozes Campestres & Poemas Esparsos” será apresentada ao público no dia 28 de agosto, às 19h, na Casa Marianna, em Castro.

Nascido em Palmeira, Antônio Martins de Araújo é considerado um dos poetas mais antigos do Paraná e apontado como o primeiro poeta nascido nos Campos Gerais. Seus versos foram escritos e publicados ao longo do século XIX, em um período em que o Paraná ainda construía sua identidade cultural e literária.

A primeira edição de “Vozes Campestres” saiu em 1898, já depois da morte do autor. O livro reúne poemas que vão muito além de uma produção literária distante no tempo. Nas páginas aparecem paisagens, lugares, costumes e aspectos da vida das pessoas que viviam no Paraná oitocentista.

É justamente esse olhar sobre a região que torna a obra relevante para além da literatura. Os poemas permitem observar como um escritor do século XIX enxergava os Campos Gerais e outras paisagens paranaenses, registrando em versos elementos de uma sociedade que passou por profundas transformações ao longo das décadas seguintes.

UM LIVRO ESCONDIDO EM UM ACERVO

Luísa Cristina dos Santos Fontes e Douglas Passoni de Oliveira consultam o exemplar raro de “Vozes Campestres”, publicado originalmente em 1898. Localizado no setor de obras raras do Clube Curitibano, em Curitiba, o livro serviu de base para a pesquisa que recuperou a obra de Antônio Martins de Araújo, um dos mais antigos poetas do Paraná.

A recuperação da obra começou a partir de uma busca por um exemplar da edição original. Como o livro de 1898 é raro, encontrar uma cópia disponível para consulta foi uma das primeiras dificuldades enfrentadas pelos pesquisadores.

O exemplar acabou sendo localizado no setor de obras raras do Clube Curitibano, em Curitiba. Foi a partir desse material que Douglas Passoni de Oliveira e Luísa Cristina dos Santos Fontes começaram a reconstruir não apenas os poemas, mas também a trajetória do homem por trás deles.

A pesquisa percorreu hemerotecas digitais, registros históricos, sites genealógicos e diferentes fontes documentais. O trabalho permitiu levantar informações sobre a vida de Antônio Martins de Araújo, seus vínculos familiares e o contexto em que sua produção literária foi construída.

Assim, a nova publicação não funciona apenas como uma reprodução de um livro antigo. Ela resulta de um esforço de pesquisa para devolver contexto a uma obra que permaneceu durante décadas restrita a acervos de difícil acesso.

DOIS PESQUISADORES E UMA MEMÓRIA LITERÁRIA

Douglas Passoni de Oliveira, natural de Palmeira, é licenciado em Música pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e desenvolve pesquisas relacionadas à música brasileira e à produção cultural dos Campos Gerais. Também integra a Academia de Letras dos Campos Gerais, ocupando a cadeira nº 8.

O interesse pela história cultural da região o levou a investigar personagens que tiveram participação na formação da produção artística e intelectual dos Campos Gerais.

A pesquisa contou ainda com a participação de Luísa Cristina dos Santos Fontes, doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina e professora aposentada da UEPG. Sua trajetória acadêmica e literária inclui estudos sobre literatura, mulheres escritoras e patrimônio literário. Ela preside a Academia Feminina de Letras do Paraná e ocupa a cadeira nº 5 da Academia de Letras dos Campos Gerais.

O encontro entre os dois pesquisadores resultou na recuperação de uma obra que, embora importante para a história literária regional, havia deixado de fazer parte do cotidiano dos leitores.

UM RETRATO DOS CAMPOS GERAIS NO SÉCULO XIX

Ler Antônio Martins de Araújo hoje também significa voltar a um Paraná muito diferente do atual. Em seus poemas, aparecem referências à paisagem e à vida regional de um período anterior à formação de muitas das cidades, instituições e estruturas culturais conhecidas atualmente.

Por isso, a publicação interessa não apenas a quem pesquisa literatura, mas também a estudiosos da história e da cultura paranaense. Os versos funcionam como registros de uma época e ajudam a ampliar a compreensão sobre como os Campos Gerais eram percebidos e representados por seus próprios habitantes.

A volta do livro às mãos dos leitores também recupera um nome que permaneceu por muito tempo restrito à memória de pesquisadores e aos acervos históricos.

O lançamento de “Vozes Campestres & Poemas Esparsos” acontece no dia 28 de agosto, às 19h, na Casa Marianna, sede da Secretaria Municipal de Cultura de Castro. A apresentação marca uma nova etapa para uma obra que nasceu no século XIX, atravessou gerações e agora retorna ao público.